sexta-feira, 6 de setembro de 2013

[música legendada] Same Love (Macklemore & Ryan Lewis feat. Mary Lambert)


Resolvi contribuir com uma tradução dessa canção porque as que estão disponíveis na internet têm gerado muitas discordâncias (ou seja, como não há uma unanimidade, também estou dando meu “palpite”). Vencedor do prêmio da MTV de “Melhor vídeo com mensagem” (uma categoria que parece ser nova, aliás), Same Love é um rap que fala sobre a aceitação do homossexualismo. 

Há quem afirme que tal música é um marco na história da cultura hip-hop, conhecida, em geral, pela homofobia e misoginia. Não só pela mensagem, é claro, mas pela qualidade da letra e da música (e mais ainda, talvez, do videoclipe), com um beat bem dissonante da tradição G-Funk. Macklemore, antes rapper solo, uniu-se ao DJ Ryan Lewis e ambos lançaram, enquanto dupla, The Heist (2012), álbum do qual faz parte o rap abaixo traduzido. A dupla tem feito sucesso também com outras faixas, como Thrift Shop

Li em algum lugar que eles samplearam, em Same Love, a música People Get Ready, dos Impressions, uma das mais belas canções já compostas pelo ser humano, na minha opinião. Realmente tem uma grande semelhança, mas não tenho certeza.

Nesse meu “palpite de tradução” a diferença principal se encontra no último verso do refrão, quando Mary Lambert diz “She keeps me warm”. Como o adjetivo “warm” não tem variação de gênero no inglês, li em muitas traduções a escolha por “aquecido”, no masculino. Creio que seja um equívoco, pois a música trata da relação homoafetiva; embora o clipe conte a história de um casal masculino, o refrão é cantado por uma mulher, logo, faria mais sentido que a mesma se dirigisse a uma outra mulher, simbolizando e abarcando também a relação homoafetiva feminina. Além disso, a própria Lambert já declarou ser lésbica (ver nota abaixo do vídeo).


NOTA: Segundo o site rapgenius, a cantora Mary Lambert explicou que o verso "não chorar aos domingos" vem de sua experiência, hoje superada, de, durante muito tempo, ir à igreja aos domingos e chorar por ter vergonha de sua homossexualidade.

domingo, 1 de setembro de 2013

[música legendada] Let Nas Down REMIX (Nas feat. J Cole)


Essa é comovente. Entraria para um livro "1001 histórias do Hip-Hop" fácil. Quem sabe até "101 histórias". Considerado uma das grandes vozes da chamada New School, o rapper J. Cole tem sido cada vez mais respeitado no cenário hip-hop, ao lado de contemporâneos como Kendrick Lamar e o pessoal da Odd Future (Tyler the Creator, Earl Sweatshirt, etc.), que aliás conta com o talentosississíssimo cantor de R&B Frank Ocean (que recentemente assumiu em público sua homossexualidade, outro marco na história do cenário hip-hop, que tradicionalmente é associado à homofobia, além da misoginia e do sexismo - o artista contou com o apoio público do casal Jay-Z e Beyoncé, além do seu amigo Tyler, líder da Odd Future).

No tocante rap Let Nas down, J. Cole nos revela como Nas foi sua grande inspiração. Ele costumava imprimir os raps de Nas e colar na parede. E diz: My niggas thought they was words, but it was pictures I saw [Meus manos pensavam que eram só palavras, mas eram imagens que eu via]. O próprio Nas conheceria Cole e daria sinal positivo sobre suas canções. Mas parece que um de seus trabalhos repercutiu negativamente para o mestre: o hit Work Out. Quando No I.D. contou isso a Cole, seu mundo caiu. A música, que você pode ouvir abaixo traduzida, extraída desse canal, narra esse dilema de Cole entre o "rap artístico" e a relação com o mainstream, bem como sua vergonha por ter decepcionado Nas. Um grande rap.


Então o gigante acordou e resolveu tranquilizar seu pupilo. Nas lançou um remix da música, que você confere abaixo, legendada. É impossível explicar a importância e a qualidade de Nas em poucas linhas, portanto nem o farei, muito embora Cole o tenha feito em Let Nas down de maneira antológica - de tal modo que, como diria Paulo Coelho, caberia num tweetPac was like Jesus, Nas wrote the Bible [Pac foi como Jesus, Nas escreveu a Bíblia].


GLOSSÁRIO
* Mano "Nasty" = um trocadilho. Nasty significa desagradável, e era também o primeiro apelido de Nasir Jones.
* Arm & Hammer = outro trocadilho. Arm&Hammer é uma marca de bicarbonato de sódio, produto que é misturado com cocaína pra fazer crack. Crack era a droga que Nas vendia nas ruas, daí o trocadilho. Além disso, "Hammer" pode ser uma gíria para arma. Essa explicação eu retirei do site rapgenius.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

[resenha de álbum] Orquestra Simbólica (Shawlin)


Em geral, a característica fundamental de um rap é a letra extensa, seja no formato storyteller, seja enquanto mensagem política ou poética, ou ainda tudo junto e misturado. Pela lógica, poderíamos acreditar que, ora, se um rapper tem à sua disposição uma estrutura lírica que permite a inserção de vários versos, naturalmente ele terá espaço para divulgar sua mensagem, para esmiuçar as metáforas, para explicar e exemplificar direitinho o que ele tem a dizer e não deixar nada de fora. Mas, como estilo multifocal e plurilíngüe que é, o rap não precisa necessariamente seguir essa regra.

Muitos rappers gostam de trabalhar seus flows de maneira sintética e elíptica. Rakim, como sempre o pai de todos, nos ensinou de maneira exemplar como a métrica é uma espécie de quebra-cabeça, durante o desenvolvimento da qual temos a possibilidade de inserir/retirar inúmeras variações. Esse processo é até natural na música popular. Falo de quebra silábica, de prolongamento de vogais, aglutinações imprevisíveis; mas a cultura musical do Brasil sempre foi familiarizada com a chamada “métrica perfeita” (que eu carinhosamente chamo de “A maldição de Chico Buarque”). Nós não estamos tão acostumados com isso, mas se você for ouvir uma canção portuguesa – já que estamos falando do nosso idioma – verá que é comum. Se eu canto aqui no Brasil “Cristiano Ronaldo é melhor do que Messi” o verso precisa começar em “Cristiano” e terminar em “Messi”, porque, semanticamente, começam e terminam exatamente aí. Em outros lugares, é comum que o primeiro verso termine em “que” e o segundo comece com “Messi”, para terminar com alguma palavra que rime com “que”, se for o caso. Nesse sentido, sinto até constrangimento ao ver como Tom Zé é um estranho no ninho na MPB.

No rap, essa estética é potencializada, até por motivos óbvios. Você tem, por definição, um espaço amplo para criar sua letra e uma velocidade de execução igualmente ampla para inserir um grande número de palavras. Por isso, é fascinante como muitos rappers aproveitam um princípio já verborrágico para amplificar ainda mais essa enxurrada lírica. Dentre os inúmeros casos, falarei brevemente do rapper Shawlin, o MC Shaw, cujo flow me chama a atenção.



Shaw é carioca e foi responsável, junto com nomes como De Leve e Marechal (ver sobre coletivo Quinto Andar), por trazer à tona a qualidade do rap carioca no século XXI. Em seu álbum Orquestra Simbólica, a verve conceitual do disco dialoga com o dia-a-dia do MC: “Na minha ocupação durante o dia, no meu emprego Clark Kent, eu sou engenheiro de áudio e trabalho com restauração do acervo russo de música clássica. Trabalhei inclusive para a Biscoito Fino aqui do Brasil e para a Brilliant Classics, lá da Holanda.”, afirmou, numa entrevista. Nesse álbum, a “sintetização lírica” de Shaw é constatada no seu uso certeiro de ditos populares e de forte carga memética (genial trocadilho com o termo “meme”, acabei de inventar). A junção elíptica dessas frases com os jargões da cultura hip-hop e/ou de periferia cria esse acúmulo semântico que alicerça a filosofia do “para bom entendedor meia palavra basta”.

Coletivo Quinto Andar. Da esquerda para a direita: Shaw, Bruno Marcus, De Leve e DJ Castro.

Na faixa O Mago, por exemplo, o rapper canta:

Mais que a morte, / Eu vou gravar na sua lembrança,
Que a sua realidade é um sonho, / Sonhado por quem alcança,
Sumi com o certo e o errado, / Mas te deixei a balança,
Vi a nossa história e mostro / O que é justiça e o que é vingança,
Temos nossas diferenças, / Ressaltei a semelhança,
Um dia nós vamos lutar juntos, / Eu celebrei nossa aliança.

Fica claro que a “balança” do sexto verso é a famosa “balança da justiça” (a música toda fala de dualidades e contradições); o adjunto é suprimido, não só para manter a rima, mas para despertar no ouvinte seu imaginário e ele mesmo pressupor do que se trata (característica muito forte no rap, bem como as referências à cultura de massa); e, mais do que isso, o termo é posto adiante, justamente de maneira crítica (como falei, esse rap trata disso): o que seria, de fato, justiça? Mais adiante, percebam como no verso “Ressaltei a semelhança” é suprimido uma conjunção – é uma questão de flow e tudo, etc., mas o que está por trás disso? Qual seria a nossa escolha óbvia? A conjunção mas: temos nossas diferenças, mas ressaltei a semelhança. Shaw, ao excluir o “mas”, mostra que não é preciso ter para si a ideia de que opostos seriam, por lei, auto-excludentes ou autodestrutivos, muito embora o tal mundo cruel sempre tente nos convencer disso. Por que o ato de ressaltar a semelhança perante as diferenças deveria vir precedido de uma conjunção de adversidade? Não necessariamente, diz Shaw.

Os dois últimos versos também reforçam a visão de mundo dual do eu lírico. Ao mesmo tempo em que prevê um momento futuro, o mago celebra a aliança no tempo pretérito.


Vamos agora a alguns exemplos mais visíveis do uso de expressões populares e meméticas. Na faixa Homem é crescer, temos:

O tempo livre? É só sangue e suor / Não mais jogando War!
Minha paciência ficou bem pior / Sem revolta ou dó
Então extravaso com uma cerva / Na sueca ou dominó
Nas minhas contas eu dou um jeito / Nos pelas, eu dou um nó
Não mais pago de gostosão / Deixo pra quem tem pau menor
Já que encontrei minha alma gêmea / Então não mais largado e só

“Dar um jeito” é uma expressão típica e creio que até idiomática. É mais difícil identificar expressões idiomáticas que não contenham nenhuma gíria, mas elas existem. E o que Shaw explora bem é a junção destas – as sem gíria – com aquelas – as com gírias. E às vezes misturando um termo de uma, noutra. Se no verso “nas minhas contas dou um jeito” não há gíria alguma, no seguinte “nos pelas, eu dou um nó” há duas; inclusive, novamente aqui temos o movimento elíptico, que condiciona o ouvinte a explorar seu imaginário lingüístico (ou ficar boiando, caso não conheça): os “pelas” são, no caso, os famosos “pela-saco”.

Assim como em O mago, o diálogo entre os versos é notável, muitas vezes entre as próprias palavras: se no verso “Nas minhas contas eu dou um jeito” fica subentendida a óbvia ideia de que uma conta existe para ser paga e de que Shaw suprime, por questões de métrica, o termo “pagar” (pela lógica seria “nas minhas contas eu dou um jeito de pagar”), logo em seguida ele retoma o termo sublimado, não mais no sentido padrão, mas como gíria. É o verso “não mais pago de gostosão”, e o jargão, no caso, é “pagar de”, ou seja: fingir que é algo, forçar a barra em relação à sua personalidade, à sua postura, etc.

Interessante observar também que, no último verso, pela lógica lingüística, Shaw poderia escrever “Não estou mais largado e só”, já que a oração pede um verbo, mas, para manter a unidade sintática da estrofe, onde ele afirma “não mais jogando War” e depois “não mais pago de gostosão”, o rapper mantém o uso do “não mais” e elimina o verbo.

Muitas vezes Shaw utiliza as elipses para demonstrar efetivamente o vazio e a efemeridade de certos aspectos da vida. Nos versos abaixo,

Viver de gozolândia / Pode ser arriscado
Querer fazer algo irado / Subir a avenida pirado
E eu ver o seu carro blindado / Numa esquina virado
Morre você, sua mina / E esses bundão do teu lado

A “rapidez” sintética com que o rapper passa sua mensagem condiz com o fato de que um acidente na estrada pode ser um momento rápido, chocante e inesperado. Num único termo – blindado – pressupõe-se a classe social desses sujeitos no carro.

Outro exemplo é o rap Coração:

Enquanto me mostravam o chão, eu e muitos miravam o céu
Passam-se anos, num me admiro de tantos virarem réus!
Tu faz seus planos, mas comete um engano e a vida créu

Ao utilizar a expressão “e a vida créu”, que por si só já é sintética e até paradigmática, Shaw nos mostra como, de repente, por uma besteira, por um quase-nada, tudo pode ruir. Ou seja: A vida créu é uma frase curta, rápida e certeira, quase fantasmagórica, exatamente como em geral é o momento em que um ínfimo deslize do sujeito pode pôr tudo a perder.

Como último exemplo de elipse, vemos na faixa A saga um exemplo de solução léxica de Shaw para manter a rima:

No perrengue e na correria
Acredite amanhã é outro dia / Lembre-se sua cabeça seu guia
Ter um emprego que te pague bem / Um pra mim também
Uma mina que nos ame com / E nos ame sem

Falo dos dois últimos versos. Naturalmente, o “com” e o “sem” representam a condição financeira do sujeito.


Atualmente, os nomes mais comentados do novíssimo rap têm sido Emicida, Cone Crew Diretoria, Projota, etc. Shawlin também já tem uma boa visibilidade, embora não tanto quanto a dos citados anteriormente. É um rapper promissor, que iniciou sua carreira com apenas 15 anos, e que pode gerar ótimos frutos. O álbum Orquestra Simbólica, de 2012, é, como se diz no jargão típico, um disco de responsa

quarta-feira, 31 de julho de 2013

[música legendada] Dominant Species (Immortal Technique)


Obcecado por proparoxítonas e por termos científicos, Immortal Technique (nome artístico do nova-iorquino, nascido no Peru, Felipe Andres Coronel) é um rapper sem concessões. Sua agressividade não é exatamente crua como aquela típica do gangsta rap; ela é arquitetada de modo a causar mais impacto pela frase do que pelo parágrafo. Tech gosta de descerrar seu flow através de duas formas principais: 1) metáforas com diversas (e inusitadas) áreas de conhecimento (física, química, ocultismo, astronomia) 2) imagens de um inusitado absurdo, na "vibe" Slim Shady/Marshall Mathers, que chocam pela morbidez (exemplo: "molestadores de criancinhas com AIDS não são mais doentios do que eu"). O fato é que, de uma forma ou de outra, Tech busca o inusitado.

Esse inusitado, porém, somente o é em relação ao próprio senso comum do rap. E a proposta é justamente torná-lo visível, palpável, chamar a atenção para sua mensagem, como legítimo ativista político que é este rapper. Em suas músicas, há uma eterna sensação de que vivemos num lugar sitiado e de que não há tempo a perder. Se se comparasse a história do rap à história da filosofia (seria Rakim um Aristóteles? Tupac um Nietzsche, talvez, pelo status pop de ambos; Ice Cube um Schopenhauer com certeza), Immortal T. seria um contemporâneo de Marx, pois o mesmo acreditava que a filosofia já tinha pensado a vida demais, e deveria-se agora tentar mudá-la - preferencialmente, através de uma revolução.

Revolutionary vol. 1 é o nome do álbum no qual consta a música traduzida desse post. Tech é avesso às gravadoras, e para ele a vida é uma guerra - sua voz parece rasgar a garganta (seu correspondente no Brasil seria MC Marechal?). E, afinal, qual o primeiro passo para batalhar numa guerra? Tech responde: reconhecer-se como um indivíduo auto-suficiente, capaz, disposto a sacrifícios, não pela filosofia suicida do "não ter nada a perder", mas pela crença de que, como ele afirma na música abaixo, o "mais importante é o que você está disposto a construir / o que você está disposto a passar pras suas crianças / o que você está disposto a criar".



OBS: "Visitas conjugais" são as visitas que as esposas fazem aos maridos presos e que são monitoradas em vídeos, para evitar que sejam repassadas drogas, armas e afins. O rapper se diz "explícito" porque, nessas "visitas", os casais costumam fazer sexo, ainda que estejam sendo filmados.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

[música legendada] The 18th Letter (Rakim)


A 18ª letra do alfabeto é a letra R, R de Rakim, esse gênio do rap. É difícil compreender o tamanho da importância deste MC para o hip-hop, justamente pela imensidão dela. Em nível de revolução formal ele estaria para o rap como estariam para a poesia Walt Whitman ou Mallarmé. Em nível de importância artística, um Goethe talvez. Rakim é nada menos que o pai, ou o padrinho, do flow - essa palavrinha mágica que diz quase tudo do que é um MC.

Sua influência é tão gigante que fisgou até mesmos os rappers que lhe precederam. Ice-T, precursor (ou fundador) do gangsta rap, é um deles: numa cena do documentário Something for nothing: the art of rap, ele admite que Rakim abriu uma verdadeira caixa de pandora do rap; que os rappers falavam coisas como "eu estou no carro", "eu andei na rua", "eu levei um tiro" e Rakim vinha com "eu te levo para um passeio no inferno, alimento sua mente e vejo seu olho arregalar/ te guio pra fora do estado triplo da escuridão", causando um impacto lírico paralelo ao que Bob Dylan proporcionou à música pop, incluídos aqui os Beatles. A explicação de Rakim é fascinante: se nas músicas instrumentais de jazz os artífices desse estilo conseguiam fazer o ouvinte "ver o que estava acontecendo" e colocá-lo num determinado estado de humor, ele precisava conseguir fazer isso com palavras também.

O Paid in full, lançado em 1987 com o DJ Eric B., trouxe várias novidades: a primeira dupla MC/DJ por excelência; a lírica, é claro, suntuosa de Rakim; os samplers heterogêneos de Eric B., os remixes de funks clássicos, a vivacidade dos scratchs... é incalculável. Tudo isso, diga-se de passagem, gravado em uma semana. Coisa de gênio.


A dupla acabou no começo da década de 90, e Rakim só viria a lançar seu álbum solo em 1997, cuja canção traduzida abaixo, a segunda faixa do disco, também lhe confere o título. Porém, Rakim saiu dos holofotes, coisa que nunca conseguirei entender. Pior: em sua carreira solo, nem chegou a entrar, a não ser no iniciozinho. Mistérios da indústria fonográfica. Afinal, os dois maiores rappers na ativa hoje são filhos legitimicíssimos de Rakim: Nas e Eminem.

A tradução da letra abaixo tentou seguir o estilo literal, embora tenha sido quase irresistível implantar uma tradução livre, ou seja, transpor a mesma métrica, rítmica e lírica. Como eu não sou um Rakim da vida, esse caminho demoraria meses certamente. Devo uma parte da tradução a um trecho que já estava disponível no mesmo documentário citado acima. Varri essa internet atrás do autor - pois o video no youtube foi excluído - e não encontrei. O Dandan Chaparral me informou que o Nathan NTN havia pedido permissão a alguém para postar o vídeo, mas não sabia se esse alguém é quem tinha traduzido. Caso a anônima pessoa se depare um dia com este blog, por favor, aceite esta humilde creditação ao seu trabalho.

Essa música é uma boa pedida pra quem não é muito fã de rap ou não tem muita afinidade com a prosódia inglesa. Vale uma pena dar uma conferida na letra original aqui. Façam o teste: assistam o vídeo e tentem acompanhar a legenda. Acho que vocês não conseguiram de primeira, pois serão completamente hipnotizados por esse flow mefistotélico. Talvez consigam, na melhor das hipóteses, acompanhar a tradução na segunda audiência - e olhe lá.


GLOSSÁRIO
* "O Flower" = do termo "flow", que, no rap, significa algo como "levada", isto é, a habilidade do rapper em lançar suas rimas na batida. Quando Rakim se autodenonima o "flower", ele está querendo dizer que ele é o cara do flow por excelência (o que não deixa de ser verdade).

Imagem de fundo aqui.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

[música legendada] Canão foi tão bom (Sabotage)


Até o momento, a versão que conhecemos de “Canão foi tão bom” é uma versão demo. Até que saia o esperado disco póstumo, Maestro do Canão, esta é a única versão de que nós, fãs do Maurinho, dispomos. Não há também, como é óbvio, nenhuma versão oficial da letra, de modo que em vários sites a letra de “Canão foi tão bom” ou possui muitos erros ou está incompleta. Ouvi a canção muitas vezes, transcrevi a letra e a comparei com as outras versões que há por aí. Sabendo se tratar de um trabalho ingrato, não tenho a presunção de fixar ou oficializar a letra de “Canão foi tão bom”, mas tenho a intenção de, pelo menos, contribuir para melhor apreciação deste rap, o qual acredito ser uma das melhores músicas de Sabotage.

Quanto à arrumação dos versos e das estrofes, levei principalmente em consideração o fôlego e a respiração de Sabotage para fixá-los. Pode parecer um critério demasiado subjetivo - e é, de certa forma -, mas não creio que haja critério melhor com o material que possuímos.

Há vários trechos da letra que são de difícil resolução e que por isso mesmo valem a pena explicar por que optei por uma saída e não por outra. Vamos a eles. 

O primeiro ponto tem a ver com o título da canção. Admito que não faço ideia se Sabotage a intitulou desta forma ou se alguém lhe deu este nome por causa do primeiro verso. De qualquer forma, preferi não mexer no título, deixei-o sem a vírgula que coloquei no verso. Coloquei esta vírgula (Canão, foi tão bom,) por achar que o “Canão” da letra é o interlocutor para quem Sabotage está cantando. 

Segundo ponto: O Dom dá opinião: a vida é a sua cara. Por que preferi colocar o verbo “dar” flexionado ao invés de “da”? Por achar que Dom, neste caso, é um sujeito, é um personagem assim como Dão e Jão, é alguém que “dá opinião”, uma vez que, para mim, “o dom da opinião”, ou seja, a habilidade de dar uma opinião, não me parece lógico dentro do que a estrofe “quer dizer”.

Terceiro ponto – e um dos mais difíceis:

Jamais a ideologia falha ganha 
a quem produz um som de Jão pros tio, né, Ganja?

Para Guilherme Junks, autor do texto “Canão foi tão bom…” (leia aqui), estes versos são arrumados assim: “Jamais a ideologia falha; / ganha quem produz um som de jão pros tio, né Ganja?”. Percebam: na minha proposta, “falha” é um adjetivo, enquanto na proposta de Guilherme, “falha” é um verbo. Na minha versão, a ideologia falha jamais ganha de quem produz um som de Jão pros tio (embora eu não tenha colocado “de” na transcrição do rap porque ele não canta assim, ele canta “a quem”). Na versão de Guilherme Junks, a ideologia jamais “falha”, e quem “ganha” é quem produz “um som de Jão pros tio”. O meu critério foi o de perceber o encadeamento das palavras na oralidade dos versos, e por isso cheguei a tal sugestão. Não sei precisamente qual foi o critério de G. Junks, embora ele escreva algo sobre: “Entendo que o Sabota quis dizer que o vencedor é o que consegue passar a mensagem da comunidade/do RAP (“som de jão”) pros que tão fora dela (“os tio”), mas sem perder a ideologia (“jamais a ideologia falha”)”. De todo modo, acho que as duas versões coexistem e criam assim uma polêmica interessante.

Ainda na quarta estrofe (proposta por mim), há um trecho que não entendi, e por isso mesmo preferi deixar com uma interrogação: Falar (?) do bairro onde eu nasci, que agrada, e pá. Algumas versões facilmente encontradas propõem: Falar podre do bairro onde eu nasci, que agradei, pá”, mas sinceramente não creio que esteja correto, sobretudo porque a palavra “podre” coloca uma contradição enorme neste trecho.

Outro trecho complicado está no refrão. Optei, no fim, por: “Se decompõe, e se / a gente faz, corre atrás…”, mas também tinha transcrito: “Se decompõe em si. / A gente faz, corre atrás…

Há muitos outros trechos que podem gerar discussão. E isto é ótimo. Não como tem defender veementemente opções como, por exemplo,

Essa é a sina.
Destino indica a correria de um homem.
Alternativa. 
Pra criança aprender, basta quem ensina.

que poderiam muito bem (como observou João Daniel, companheiro aqui do blog) possuir “dois pontos” ao invés de pontos finais:

Essa é a sina:
destino indica a correria de um homem.
Alternativa: 
pra criança aprender, basta quem ensina.

Como disse no começo do texto, segui o critério da respiração e coloquei pontos finais por achar que, na música, estes versos soaram mais “marcados” e “pausados” do que contínuos – uma vez que eu penso que os dois pontos poderiam ‘ligar’ os versos ao invés de separá-los ou demarcá-los.

Quanto à grafia do texto, considerei unicamente a maneira de Sabotage cantar. Supostos erros de concordância foram sumariamente ignorados, pois privilegiei a cadência rítmica da oralidade do mestre Sabote.


*

CANÃO FOI TÃO BOM
  
Canão, foi tão bom,
poder falar pro Dão, que aprendi com Jão,
como obter mais alegria, cara, sempre informação.

Sangue puro e bom.
Pras droga basta um simples não.
O Dom dá opinião: a vida é a sua cara.

Eu me dou bem no som - na raça, um ‘spectron’...
Quem sai do rojão?
É, tio, sem drama…
Face a face com o subúrbio.
O Mandarim, Sabote, o Maurin, o Núcleo.

Registra e mete a cara.
Jamais a ideologia falha ganha
a quem produz um som de Jão pros tio, né, Ganja?
Falar (?) do bairro onde eu nasci, que agrada, e pá.
A mesma viatura pra enquadrar.

Lembrar das mina: mulher, vocês são linda.
Paz periferia.
A criançada agita, pula amarelinha.
A guila gira.
Ciranda, cirandinha.
É muita treta.
Talvez melhor que um menas treta.

Brooklyn, o que será de ti?
Regar a paz, eu vim.
Jesus já foi assim.
Brigas traz intriga, ai de mim, se não, tolin,
Zé Povim quer meu fim.
Se esperar, apodrece.
Se decompõe, e se
a gente faz, corre atrás, pede a paz, eles esquece.
Sempre assim. Crocodilo hoje se arrasta em solo férti.

Crime, ouro, dólar. Bola fora, esquece.
Os vermes, eleito querem,
seus votos preferem.
Paralisia infantil no morro cresce.
Ele observe: o que lhe impede do confere?
A mãe? O pivete? Sujeito mais que pede breque?
Se eu tô com frio, fome, fúria, trombo, clique-clack.
Sei que eles doam, mas não pros morros, pra Unicef.
Pobre esquece.
A mãe maior nos aparece e pede.
O fim maior está tão breve.
"Filho, então que reze, anda ló”.
Vejo na maló.
Ó só, ainda mais pobre do que eu, ai que dó.

Na parte de cima.
Morro da Macumba. Catarina.
Sem estudo, liga.
Criança, coroinha.
O medo, vejo se aproxima.
Às vez não tem nem pista, veja só que fita,
ele desceu da lotação, sofreu chacina.

No bolso uma anistia.
De butucão, beque do bom.
Um beque muito louco e a maldita.
A heroína, a tal da bomba da Hiroshima.

Aqui se faz o fim pra periferia.
Melhor jogar pra cima que tomar.

Tio, vou falar.
Delito óbvio.
Sangue, suor, amor e ódio.
Roubada.
Se não ter fé, tio, se tranca em casa.
E não saia.
Ligue a TV, talvez você vai ver.
Pode crê, me vê num outdoor.
Querem me pegar pra ló.
Vê se po-de?
O menor problema, saiba que é maló.
Dou valor pos pó.
Ter dó de quem vem se arriscar na vida bandida,
o custo de vida, dá laço sem nó.
Lembra a vó. Ó, dá mó dó.
Criança na periferia vive sem estudo e só.
À mercê da mó, tio - tri-Sabó.
Do Mandarin de vol-
ta pra rima, voz bem lá em cima.
Essa é a sina.
Destino indica a correria de um homem.
Alternativa.
Pra criança aprender, basta quem ensina.

Essa é a verdade,
criança aprende cedo a ter caráter.
A distinguir sua classe.
Estude, marque, seja um mártir.
Às vezes um Luther King, um Sabotage.

Brooklyn, o que será de ti?
Regar a paz, eu vim.
Jesus já foi assim.
Brigas traz intriga, ai de mim, se não, tolin,
Zé Povim quer meu fim.
Se esperar, apodrece.
Se decompõe.
E se a gente faz, corre atrás, pede a paz, eles esquece.
Sempre assim. Crocodilo hoje se arrasta em solo férti.

terça-feira, 16 de julho de 2013

[música legendada] Love is... (Common)


Produzido brilhantemente por Kanye West, o 6º álbum do rapper Common é considerado um dos melhores álbuns de música da primeira década do século XXI. Chama-se apenas "Be" - conforme indica o último verso da faixa homônima que abre o disco ("eu apenas quero ser"). Há diversos subgêneros nos quais os especialistas costumam rotular o rap de Common, da ordem ética (Political Rap) à ordem estética (Jazz-rap), passando pela ordem geográfica (Midwest Rap). Essa última se deve ao fato de Common ser natural de Chicago.

Achei traduções de apenas duas faixas desse álbum, não por acaso as duas melhores (pelo menos na minha opinião): Be e Real People, ambas no canal de youtube do usuário brunnnocosta - um camarada, aliás, que não brinca em serviço, já tendo traduzido faixas do Black Album de Jay-Z e do genial Illmatic de Nas.

A voz de Common é um dos ingredientes mais cativantes dos seus trabalhos. Talvez o componente primordial do hip-hop, a voz do rapper/MC é a base e o cimo de uma canção de rap. Enquanto dicções como a de um Ice Cube causam medo, tamanha a agressividade, a essência vocal de Common é mais melancólica (sobretudo na fase madura). Sua autenticidade é, pelo menos para mim, convincente. Digo isto porque existe uma imensa discussão acerca da teatralidade na voz de um rapper quando ele está cantando/declamando. Eu mesmo tenho alguma dificuldade, por exemplo, em apreciar o estilo um tanto "suspiroso" da linha Emicida-Projota-Rashid.

Common pauta-se sobretudo na dialética problema-solução: há miséria e maldade no mundo, mas há também esperança. Sua principal mensagem parece ser: se nós estamos diante disso, nós mesmos é que podemos resolvê-lo; ainda que o caminho seja paliativo, já é infinitamente melhor que nada (em Be ele diz "The present is a gift", cuja curiosa tradução literal para o português encerra uma ocorrência de homonímia: "O presente é um presente", que brunnnocosta traduziu como "O agora é um presente", e há também a opção "O presente é uma dádiva"). 

Não obstante, Common não é um ingênuo - ele reconhece a força esmagadora da realidade sobre a ilusão. Love is..., traduzida abaixo, trata dessa questão: para Common, o amor, tão difícil de se encontrar nas ruas, é uma importante saída que, todavia, abre o precedente para o aprisionamento das partes. O rapper nos alerta sobre o paradoxo da fuga da prisão da realidade para a prisão de um suposto "amor puro" (fugir implica "liberdade", daí o paradoxo) que, no final das contas, atrofia o "ser" (Be) perante aquilo do qual não se pode fugir, isto é, a vigília da realidade. Tenhamos amor não para escapar do real, mas para suportá-lo. 

As letras "mensageiras" de Common fizeram-no ganhar respeito em espaços que costumam desprezar a cultura hip-hop, não apenas os espaços de elite, mas também os que sustentam o senso comum do rap enquanto trindade Sexo-Drogas-Violência (no sentido pejorativo da coisa). Uma das "polêmicas" mais notáveis se deu quando o rapper foi convidado pelos Obamas para fazer uma apresentação num evento artístico na Casa Branca - Common foi criticado em várias instâncias, incluindo as midiáticas, basicamente pelo simples fato de fazer rap (que não é visto como uma cultura "decente" pelos canônico-elitistas). Um sintomático caso, que fez-me recordar das críticas depreciativas da controversa Danuza Leão ao governo Lula, quando, em certo ano de seu mandato, o mesmo realizou uma Festa Junina no Palácio da Alvorada.


GLOSSÁRIO
* vida loka = "thug" é simplesmente intraduzível, pelo menos na linguagem do rap. no dicionário pode-se encontrar "criminoso", "bandido", "malfeitor", mas no rap há toda uma filosofia de vida que envolve o termo, popularizada sobretudo através de Tupac e seus princípios do Thug Life. a escolha por "vida loka" é mais uma brincadeira com o uso dessa expressão que está muito em voga atualmente aqui no Brasil.
* crap = trocadilho da palavra "crap" (merda, porcaria) com "craps" (jogo de azar que utiliza dados, mais comum em cassinos, daí a referência em "black dames" - ao invés do famoso "amuleto" que é a dama de vermelho, temos a dama negra, ou "dama de preto", pois o "crap games" a que Common se refere é jogado nas ruas dos guetos - daí o "porcaria" - e não nos cassinos luxuosos)
* hood = também pode ser traduzido como "quebrada".
* Heartbreak Hotel = ver música que ficou famosa na voz de Elvis Presley

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