Mais uma tradução do Lupe Fiasco, do poderoso disco Food & Liquor. Nesse fim de ano eu e os parças estamos meio sem tempo pra atualizar o blog, mas ano que vem vamos seguir adiante no projeto.
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domingo, 15 de dezembro de 2013
[música legendada] Hurt me soul (Lupe Fiasco)
Mais uma tradução do Lupe Fiasco, do poderoso disco Food & Liquor. Nesse fim de ano eu e os parças estamos meio sem tempo pra atualizar o blog, mas ano que vem vamos seguir adiante no projeto.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
[música legendada] Kick, Push (Lupe Fiasco)
Para a sorte historiográfica de muitos artistas, o maior de todos eles - em todos os sentidos e em todas as artes -, surgido nos últimos 15 anos, despontou antes do século XXI começar. Logo, é só em rankings do tipo "Os melhores surgidos no século XXI" que ele pode ser passado para trás. Seu primeiro álbum não muito interessante foi lançado em 96, mas é com o seu clássico de 99 que ele vem à tona com força. Eu tô falando do Slim Shady LP - eu tô falando do Eminem.
Mas a música traduzida de hoje é do Lupe Fiasco. Em se tratando de estréias dos anos 2000, tivemos grandes nomes como Kanye West e 50 cent, além de Sabotage aqui no Brasil, e é curioso como na cultura hip-hop existe um quase consenso no fato de que muitos álbuns primeiros costumam ser, em geral, os melhores de seus respectivos rappers. Desde o N.W.A. na década de 80, passando por Dr. Dre, Snoop Dogg, Nas, Notorious B.I.G. ou Lauryn Hill na década de 90, os casos são muitos. Na primeira década deste século, os próprios supracitados não fogem à regra (à exceção de West - é impossível decidir qual seu melhor trabalho), e Fiasco é um deles.
Natural de Chicago, Lupe Fiasco parece manter uma razoável "tradição" aqui - a tradição do chamado rap consciente. Aquele rap que Barack Obama respeita. Aquelas canções de rap que criticam temáticas pilares no estilo gangsta: apologias a drogas e violência, misoginia, homofobia, etc. Common (já traduzido aqui), grande inspiração de Fiasco, é de lá também - desde meados de 94 que ele já criticava o gangsta shit. Sem falar de Kanye West, um dos primeiros defensores do fim da homofobia na cultura hip-hop, e um cara que fez um hoje clássico chamado Jesus Walks (com o curioso argumento de que "as pessoas tão falando demais de drogas, dinheiro, poder, sexo, precisamos falar mais de Jesus") - apesar de ter crescido em Detroit, nasceu em Chicago também.
Dizem que Fiasco fala por metáforas. Nessa faixa, que trata aparentemente da vida de jovens skatistas, poderia-se verificar um significado implícito. Muito provavelmente, talvez, o mundo do tráfico. De como ele começou ainda criança, vendo o movimento nas ruas, de como se deu mal no começo, de como pegou o jeito e de como aquilo o fascinou e o fez subir à cabeça. No começo, Fiasco diz "Eu dedico essa aqui / Pra todos os parceiros fazendo "grind" lá fora / Tá ligado no que eu falo? / Legal e ilegal", e esse último verso nos faz crer que a metáfora é de fato clara. O grind é uma manobra do skate que consiste em deslizar em barras de ferro ou similares. No clipe, no momento em que Fiasco fala essa parte, vemos os parceiros atrás de grades verticais, o que remeteria à prisão - outra dica que seria, em tese, infalível. Além do mais, ao final de cada uma das três partes da música Fiasco canta sobre a postura contra o seu "hobby" representada por três elementos: primeiro os "incomodados vizinhos"; segundo, o segurança de um "lugar estranho"; e, por fim, os policiais.
Apesar disso, muitas coisas, sobretudo o clipe, pesam contra esse duplo sentido e fazem crer que, no final das contas, é só uma música sobre skatistas mesmo. Ainda que o seja - e o é muito bem feita -, fica óbvia a reflexão sobre as pequenas opressões do dia-a-dia nesses ambientes - e "opressão" é um termo pesado, mas, nesse caso, insubstituível. Pode não ser uma metáfora no estilo "duplo sentido", mas não deixa de sê-la no estilo "para além do que se vê".
Vale frisar a pequena homenagem a Nas, outra grande referência de Fiasco, no trecho "...the world was theirs" (O mundo era deles) - naturalmente, trata-se de uma alusão ao The World is Yours, do Illmatic.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
[música legendada] Dominant Species (Immortal Technique)
Obcecado por proparoxítonas e por termos científicos, Immortal Technique (nome artístico do nova-iorquino, nascido no Peru, Felipe Andres Coronel) é um rapper sem concessões. Sua agressividade não é exatamente crua como aquela típica do gangsta rap; ela é arquitetada de modo a causar mais impacto pela frase do que pelo parágrafo. Tech gosta de descerrar seu flow através de duas formas principais: 1) metáforas com diversas (e inusitadas) áreas de conhecimento (física, química, ocultismo, astronomia) 2) imagens de um inusitado absurdo, na "vibe" Slim Shady/Marshall Mathers, que chocam pela morbidez (exemplo: "molestadores de criancinhas com AIDS não são mais doentios do que eu"). O fato é que, de uma forma ou de outra, Tech busca o inusitado.
Esse inusitado, porém, somente o é em relação ao próprio senso comum do rap. E a proposta é justamente torná-lo visível, palpável, chamar a atenção para sua mensagem, como legítimo ativista político que é este rapper. Em suas músicas, há uma eterna sensação de que vivemos num lugar sitiado e de que não há tempo a perder. Se se comparasse a história do rap à história da filosofia (seria Rakim um Aristóteles? Tupac um Nietzsche, talvez, pelo status pop de ambos; Ice Cube um Schopenhauer com certeza), Immortal T. seria um contemporâneo de Marx, pois o mesmo acreditava que a filosofia já tinha pensado a vida demais, e deveria-se agora tentar mudá-la - preferencialmente, através de uma revolução.
Revolutionary vol. 1 é o nome do álbum no qual consta a música traduzida desse post. Tech é avesso às gravadoras, e para ele a vida é uma guerra - sua voz parece rasgar a garganta (seu correspondente no Brasil seria MC Marechal?). E, afinal, qual o primeiro passo para batalhar numa guerra? Tech responde: reconhecer-se como um indivíduo auto-suficiente, capaz, disposto a sacrifícios, não pela filosofia suicida do "não ter nada a perder", mas pela crença de que, como ele afirma na música abaixo, o "mais importante é o que você está disposto a construir / o que você está disposto a passar pras suas crianças / o que você está disposto a criar".
OBS: "Visitas conjugais" são as visitas que as esposas fazem aos maridos presos e que são monitoradas em vídeos, para evitar que sejam repassadas drogas, armas e afins. O rapper se diz "explícito" porque, nessas "visitas", os casais costumam fazer sexo, ainda que estejam sendo filmados.
terça-feira, 16 de julho de 2013
[música legendada] Love is... (Common)
Produzido brilhantemente por Kanye West, o 6º álbum do rapper Common é considerado um dos melhores álbuns de música da primeira década do século XXI. Chama-se apenas "Be" - conforme indica o último verso da faixa homônima que abre o disco ("eu apenas quero ser"). Há diversos subgêneros nos quais os especialistas costumam rotular o rap de Common, da ordem ética (Political Rap) à ordem estética (Jazz-rap), passando pela ordem geográfica (Midwest Rap). Essa última se deve ao fato de Common ser natural de Chicago.
Achei traduções de apenas duas faixas desse álbum, não por acaso as duas melhores (pelo menos na minha opinião): Be e Real People, ambas no canal de youtube do usuário brunnnocosta - um camarada, aliás, que não brinca em serviço, já tendo traduzido faixas do Black Album de Jay-Z e do genial Illmatic de Nas.
A voz de Common é um dos ingredientes mais cativantes dos seus trabalhos. Talvez o componente primordial do hip-hop, a voz do rapper/MC é a base e o cimo de uma canção de rap. Enquanto dicções como a de um Ice Cube causam medo, tamanha a agressividade, a essência vocal de Common é mais melancólica (sobretudo na fase madura). Sua autenticidade é, pelo menos para mim, convincente. Digo isto porque existe uma imensa discussão acerca da teatralidade na voz de um rapper quando ele está cantando/declamando. Eu mesmo tenho alguma dificuldade, por exemplo, em apreciar o estilo um tanto "suspiroso" da linha Emicida-Projota-Rashid.
Common pauta-se sobretudo na dialética problema-solução: há miséria e maldade no mundo, mas há também esperança. Sua principal mensagem parece ser: se nós estamos diante disso, nós mesmos é que podemos resolvê-lo; ainda que o caminho seja paliativo, já é infinitamente melhor que nada (em Be ele diz "The present is a gift", cuja curiosa tradução literal para o português encerra uma ocorrência de homonímia: "O presente é um presente", que brunnnocosta traduziu como "O agora é um presente", e há também a opção "O presente é uma dádiva").
Não obstante, Common não é um ingênuo - ele reconhece a força esmagadora da realidade sobre a ilusão. Love is..., traduzida abaixo, trata dessa questão: para Common, o amor, tão difícil de se encontrar nas ruas, é uma importante saída que, todavia, abre o precedente para o aprisionamento das partes. O rapper nos alerta sobre o paradoxo da fuga da prisão da realidade para a prisão de um suposto "amor puro" (fugir implica "liberdade", daí o paradoxo) que, no final das contas, atrofia o "ser" (Be) perante aquilo do qual não se pode fugir, isto é, a vigília da realidade. Tenhamos amor não para escapar do real, mas para suportá-lo.
As letras "mensageiras" de Common fizeram-no ganhar respeito em espaços que costumam desprezar a cultura hip-hop, não apenas os espaços de elite, mas também os que sustentam o senso comum do rap enquanto trindade Sexo-Drogas-Violência (no sentido pejorativo da coisa). Uma das "polêmicas" mais notáveis se deu quando o rapper foi convidado pelos Obamas para fazer uma apresentação num evento artístico na Casa Branca - Common foi criticado em várias instâncias, incluindo as midiáticas, basicamente pelo simples fato de fazer rap (que não é visto como uma cultura "decente" pelos canônico-elitistas). Um sintomático caso, que fez-me recordar das críticas depreciativas da controversa Danuza Leão ao governo Lula, quando, em certo ano de seu mandato, o mesmo realizou uma Festa Junina no Palácio da Alvorada.
GLOSSÁRIO
* vida loka = "thug" é simplesmente intraduzível, pelo menos na linguagem do rap. no dicionário pode-se encontrar "criminoso", "bandido", "malfeitor", mas no rap há toda uma filosofia de vida que envolve o termo, popularizada sobretudo através de Tupac e seus princípios do Thug Life. a escolha por "vida loka" é mais uma brincadeira com o uso dessa expressão que está muito em voga atualmente aqui no Brasil.
* crap = trocadilho da palavra "crap" (merda, porcaria) com "craps" (jogo de azar que utiliza dados, mais comum em cassinos, daí a referência em "black dames" - ao invés do famoso "amuleto" que é a dama de vermelho, temos a dama negra, ou "dama de preto", pois o "crap games" a que Common se refere é jogado nas ruas dos guetos - daí o "porcaria" - e não nos cassinos luxuosos)
* crap = trocadilho da palavra "crap" (merda, porcaria) com "craps" (jogo de azar que utiliza dados, mais comum em cassinos, daí a referência em "black dames" - ao invés do famoso "amuleto" que é a dama de vermelho, temos a dama negra, ou "dama de preto", pois o "crap games" a que Common se refere é jogado nas ruas dos guetos - daí o "porcaria" - e não nos cassinos luxuosos)
* hood = também pode ser traduzido como "quebrada".
* Heartbreak Hotel = ver música que ficou famosa na voz de Elvis Presley
Imagem de fundo aqui.
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