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domingo, 1 de setembro de 2013

[música legendada] Let Nas Down REMIX (Nas feat. J Cole)


Essa é comovente. Entraria para um livro "1001 histórias do Hip-Hop" fácil. Quem sabe até "101 histórias". Considerado uma das grandes vozes da chamada New School, o rapper J. Cole tem sido cada vez mais respeitado no cenário hip-hop, ao lado de contemporâneos como Kendrick Lamar e o pessoal da Odd Future (Tyler the Creator, Earl Sweatshirt, etc.), que aliás conta com o talentosississíssimo cantor de R&B Frank Ocean (que recentemente assumiu em público sua homossexualidade, outro marco na história do cenário hip-hop, que tradicionalmente é associado à homofobia, além da misoginia e do sexismo - o artista contou com o apoio público do casal Jay-Z e Beyoncé, além do seu amigo Tyler, líder da Odd Future).

No tocante rap Let Nas down, J. Cole nos revela como Nas foi sua grande inspiração. Ele costumava imprimir os raps de Nas e colar na parede. E diz: My niggas thought they was words, but it was pictures I saw [Meus manos pensavam que eram só palavras, mas eram imagens que eu via]. O próprio Nas conheceria Cole e daria sinal positivo sobre suas canções. Mas parece que um de seus trabalhos repercutiu negativamente para o mestre: o hit Work Out. Quando No I.D. contou isso a Cole, seu mundo caiu. A música, que você pode ouvir abaixo traduzida, extraída desse canal, narra esse dilema de Cole entre o "rap artístico" e a relação com o mainstream, bem como sua vergonha por ter decepcionado Nas. Um grande rap.


Então o gigante acordou e resolveu tranquilizar seu pupilo. Nas lançou um remix da música, que você confere abaixo, legendada. É impossível explicar a importância e a qualidade de Nas em poucas linhas, portanto nem o farei, muito embora Cole o tenha feito em Let Nas down de maneira antológica - de tal modo que, como diria Paulo Coelho, caberia num tweetPac was like Jesus, Nas wrote the Bible [Pac foi como Jesus, Nas escreveu a Bíblia].


GLOSSÁRIO
* Mano "Nasty" = um trocadilho. Nasty significa desagradável, e era também o primeiro apelido de Nasir Jones.
* Arm & Hammer = outro trocadilho. Arm&Hammer é uma marca de bicarbonato de sódio, produto que é misturado com cocaína pra fazer crack. Crack era a droga que Nas vendia nas ruas, daí o trocadilho. Além disso, "Hammer" pode ser uma gíria para arma. Essa explicação eu retirei do site rapgenius.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

[música legendada] Dominant Species (Immortal Technique)


Obcecado por proparoxítonas e por termos científicos, Immortal Technique (nome artístico do nova-iorquino, nascido no Peru, Felipe Andres Coronel) é um rapper sem concessões. Sua agressividade não é exatamente crua como aquela típica do gangsta rap; ela é arquitetada de modo a causar mais impacto pela frase do que pelo parágrafo. Tech gosta de descerrar seu flow através de duas formas principais: 1) metáforas com diversas (e inusitadas) áreas de conhecimento (física, química, ocultismo, astronomia) 2) imagens de um inusitado absurdo, na "vibe" Slim Shady/Marshall Mathers, que chocam pela morbidez (exemplo: "molestadores de criancinhas com AIDS não são mais doentios do que eu"). O fato é que, de uma forma ou de outra, Tech busca o inusitado.

Esse inusitado, porém, somente o é em relação ao próprio senso comum do rap. E a proposta é justamente torná-lo visível, palpável, chamar a atenção para sua mensagem, como legítimo ativista político que é este rapper. Em suas músicas, há uma eterna sensação de que vivemos num lugar sitiado e de que não há tempo a perder. Se se comparasse a história do rap à história da filosofia (seria Rakim um Aristóteles? Tupac um Nietzsche, talvez, pelo status pop de ambos; Ice Cube um Schopenhauer com certeza), Immortal T. seria um contemporâneo de Marx, pois o mesmo acreditava que a filosofia já tinha pensado a vida demais, e deveria-se agora tentar mudá-la - preferencialmente, através de uma revolução.

Revolutionary vol. 1 é o nome do álbum no qual consta a música traduzida desse post. Tech é avesso às gravadoras, e para ele a vida é uma guerra - sua voz parece rasgar a garganta (seu correspondente no Brasil seria MC Marechal?). E, afinal, qual o primeiro passo para batalhar numa guerra? Tech responde: reconhecer-se como um indivíduo auto-suficiente, capaz, disposto a sacrifícios, não pela filosofia suicida do "não ter nada a perder", mas pela crença de que, como ele afirma na música abaixo, o "mais importante é o que você está disposto a construir / o que você está disposto a passar pras suas crianças / o que você está disposto a criar".



OBS: "Visitas conjugais" são as visitas que as esposas fazem aos maridos presos e que são monitoradas em vídeos, para evitar que sejam repassadas drogas, armas e afins. O rapper se diz "explícito" porque, nessas "visitas", os casais costumam fazer sexo, ainda que estejam sendo filmados.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

[música legendada] The 18th Letter (Rakim)


A 18ª letra do alfabeto é a letra R, R de Rakim, esse gênio do rap. É difícil compreender o tamanho da importância deste MC para o hip-hop, justamente pela imensidão dela. Em nível de revolução formal ele estaria para o rap como estariam para a poesia Walt Whitman ou Mallarmé. Em nível de importância artística, um Goethe talvez. Rakim é nada menos que o pai, ou o padrinho, do flow - essa palavrinha mágica que diz quase tudo do que é um MC.

Sua influência é tão gigante que fisgou até mesmos os rappers que lhe precederam. Ice-T, precursor (ou fundador) do gangsta rap, é um deles: numa cena do documentário Something for nothing: the art of rap, ele admite que Rakim abriu uma verdadeira caixa de pandora do rap; que os rappers falavam coisas como "eu estou no carro", "eu andei na rua", "eu levei um tiro" e Rakim vinha com "eu te levo para um passeio no inferno, alimento sua mente e vejo seu olho arregalar/ te guio pra fora do estado triplo da escuridão", causando um impacto lírico paralelo ao que Bob Dylan proporcionou à música pop, incluídos aqui os Beatles. A explicação de Rakim é fascinante: se nas músicas instrumentais de jazz os artífices desse estilo conseguiam fazer o ouvinte "ver o que estava acontecendo" e colocá-lo num determinado estado de humor, ele precisava conseguir fazer isso com palavras também.

O Paid in full, lançado em 1987 com o DJ Eric B., trouxe várias novidades: a primeira dupla MC/DJ por excelência; a lírica, é claro, suntuosa de Rakim; os samplers heterogêneos de Eric B., os remixes de funks clássicos, a vivacidade dos scratchs... é incalculável. Tudo isso, diga-se de passagem, gravado em uma semana. Coisa de gênio.


A dupla acabou no começo da década de 90, e Rakim só viria a lançar seu álbum solo em 1997, cuja canção traduzida abaixo, a segunda faixa do disco, também lhe confere o título. Porém, Rakim saiu dos holofotes, coisa que nunca conseguirei entender. Pior: em sua carreira solo, nem chegou a entrar, a não ser no iniciozinho. Mistérios da indústria fonográfica. Afinal, os dois maiores rappers na ativa hoje são filhos legitimicíssimos de Rakim: Nas e Eminem.

A tradução da letra abaixo tentou seguir o estilo literal, embora tenha sido quase irresistível implantar uma tradução livre, ou seja, transpor a mesma métrica, rítmica e lírica. Como eu não sou um Rakim da vida, esse caminho demoraria meses certamente. Devo uma parte da tradução a um trecho que já estava disponível no mesmo documentário citado acima. Varri essa internet atrás do autor - pois o video no youtube foi excluído - e não encontrei. O Dandan Chaparral me informou que o Nathan NTN havia pedido permissão a alguém para postar o vídeo, mas não sabia se esse alguém é quem tinha traduzido. Caso a anônima pessoa se depare um dia com este blog, por favor, aceite esta humilde creditação ao seu trabalho.

Essa música é uma boa pedida pra quem não é muito fã de rap ou não tem muita afinidade com a prosódia inglesa. Vale uma pena dar uma conferida na letra original aqui. Façam o teste: assistam o vídeo e tentem acompanhar a legenda. Acho que vocês não conseguiram de primeira, pois serão completamente hipnotizados por esse flow mefistotélico. Talvez consigam, na melhor das hipóteses, acompanhar a tradução na segunda audiência - e olhe lá.


GLOSSÁRIO
* "O Flower" = do termo "flow", que, no rap, significa algo como "levada", isto é, a habilidade do rapper em lançar suas rimas na batida. Quando Rakim se autodenonima o "flower", ele está querendo dizer que ele é o cara do flow por excelência (o que não deixa de ser verdade).

Imagem de fundo aqui.