Mostrando postagens com marcador 2010-2019. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 2010-2019. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

[resenha de mixtape] Caro Vapor / Vida e Veneno de Don L (Don L)



Em 24 de janeiro deste ano completou-se 10 anos de morte do maior rapper brasileiro de todos os tempos até então, Sabotage. A história do hip-hop no Brasil é recheada de vários nomes, mas, em termos de fenômeno – vendas, mídia, representatividade e/ou qualidade –, ela pode ser dividida, até então, em 1)Racionais MC’s 2)Gabriel O Pensador 3)Sabotage 4)Emicida/Criolo (muitos desconsiderariam o item 2).

O fato é que têm surgido cada vez mais nomes e produções de peso, e, consequentemente, a grande pergunta com certeza não deixará de ser feita: quem seria o mais promissor MC brasileiro surgido na era pós-Sabota? Emicida tem tudo para abocanhar o troféu; meu palpite, inicialmente, seria MC Marechal – até que eu conheci o som de Don L, e agora estou numa dúvida cruel.

Don L é um rapper de Fortaleza que surgiu numa banda chamada Costa a Costa. A mixtape da banda lançada em 2007, Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência de Costa a Costa, chamou bastante a atenção: era um “gangsta abrasileirado”, era um “’Sobrevivendo no Inferno’ mais infernal ainda”. Quando ouvi o hit Costa Rica, chamou-me a atenção o flow descolado deste MC, mas de um descolado que nunca ouvi em outro rapper daqui.

(Antes de dar seguimento ao texto, uma opinião mais respaldada que a minha: Daniel Ganjaman, que produziu Sabotage e Criolo, escreveu no seu facebook “Mixtape sensacional do Don L, o MC mais autêntico da atualidade. Gosto muito e recomendo!” – clique no link e comprove)

Autêntico, sim. E descolado. No sentido mais literal da palavra. Parece ter cola no seu flow – mas uma cola “descolada”. Sente-se a plasticidade da dicção, da pronúncia dos fonemas, o trabalho de alternância do tom, no qual mesmo o sussurro parece denso, cheio de polpa (na MPB brasileira só Jorge Ben canta desse jeito). O curioso é que nessa mixtape há uma faixa intitulada justamente Plástico. E em quase todas as faixas Don L utiliza autotune, recurso que dialoga contundentemente com seu flow.

O flow descolado (nesse sentido de “cola”, de deboche, tom superior, auto-estima vocal elevada à enésima potência) tem um pai: Jay-Z. E é certeza que Don L ouviu Jigga Man até não poder mais. Jay costuma explorar a densidade das vogais e das consoantes laterais (não à toa adora usar termos hispânicos, já que o espanhol é a língua que usa o L da maneira mais bela e sedutora). Don L (olha o “L” aí) também explora esse território e, além de Jay-Z, inspira-se na precisão diferenciada de Chico Buarque (ambos são influência confessa do rapper). Tal como Chico, a métrica de Don não é meramente linear – ela é circular, pois circula no todo lírico (tenham em mente Construção de Chico; aliás, qualquer uma de Chico). Poucas palavras são inseridas à toa nos versos – pensando bem, poucas sílabas. Exemplo: em Sangue é Champanhe, encontramos

Peça de marfim
Quadros raros tão requinte
E quando eu declaro tim-tim


Só ouvindo pra entender melhor, mas percebe-se aqui como, numa mesma palavra, a do 2º verso, ele aproveitou para rimar – com sílabas diferentes – com o 1º e o 3º verso, mantendo a rima maior que é a vogal “i” nasalizada.

Nos beats encontramos de tudo: rock, blues, jazz, slow jam, ritmos latinos, caribenhos, funk, soul. São estilos de vários lugares, de costa a costa. Esse é um rapper pra ficar de olho. E bem atento.



- - - - - FAIXA-A-FAIXA - - - - (baixe clicando aqui)

1) Morra bem, viva rápido

Eu vi a modelo sorrindo pra mim
O outdoor brilha
Cê não entende a fita ?
Nós tudo vive pra morrer mas luta pela vida

Tem gente declarando por aí no twitter que ainda não conseguiu ouvir a mixtape toda porque sequer consegue deixar de ouvir essa faixa. De fato, a melhor opção para introduzir esse trabalho. Muitos rappers – sobretudo os autênticos – costumam criar um mundo lírico próprio, afinal é basicamente a partir disso que se faz um flow. Um dos primeiros MCs a popularizar essa estética foi Snoop Dogg: uma de suas marcas registradas é soletrar nomes próprios (principalmente o dele, é claro) – S-N-O-O-P D-O-G-G (leia-se “S, N, Double O,P, D, O, Double G”). 

Em Don L temos marcas lexicais; volta e meia, nas letras, encontrar-se-ão termos como o verbo filma! (no imperativo, com exclamação), ou a frase nós contra o mundo (referência à “me against the world” de Tupac), ou plástico, ou gelo, ou denso. O colega Ederval chamaria isso de ressonância mnemônica.

2) Chips

Respira sem stress
Porque de cem, da vida, cê num entende nem dez
Ri do perigo comigo, cola minha hashtag
#foda-se

Uma estrutura que Don L costuma utilizar, e que não é muito usual na tradição do rap, é o refrão longo. A estrutura mais comum é a Verso 1 > Refrão (quatro versos) > Verso 2 > Refrão > Verso 3 > Refrão; volta e meia encontram-se refrões de 8 versos, mas em Don L muitos têm 12 e até 16 versos. E, muitas vezes, um Verso só [NOTA: para não confundir, o Verso com V maiúsculo se refere à estrutura musical, ao passo que o verso com v minúsculo se refere às linhas].

Curiosamente, há um rapper atual nos EUA trabalhando assim também, e que está bombando lá fora, que é o Kendrick Lamar (e eles até se assemelham, já que Kendrick também é da escola de Jay-Z). Mais curiosamente ainda: o flow em Chips dialoga com o de Bitch don’t kill my vibe, hit de Lamar.

3) Rolê dos loko

Eu num vim aumentar o drama, vim virar o jogo 
Eu nunca tive autorama, xeu brincar um pouco
Na pista real dos loko, com meus brinquedo novo

Quem produziu essa faixa foi a dupla Stereodubs, os mesmos caras que trabalharam com Flora Matos. Mais uma faixa na estrutura Refrão > Verso único > Refrão. Um som com uma pegada mais eletrônica, com um flow recheado de precisão e deboche. Não sei por qual motivo Don batizou a si próprio com tal apelido – Don L – mas, se tem alguma coisa a ver com a sonoridade da letra L, faz sentido, porque a maneira “cremosa” e fluida com que ele pronuncia essa consoante é realmente chamativa.

4) Doce dose

John Lennon vivo no caixão 
E o amor morto
Doses de ilusão, Yoko
Olha o que é ser leão no jogo
Pôr animais em extinção no bolso
Predadores tão a solto

Um blues-rock com participação de Felipe Cazaux, músico paulista radicado em Fortaleza. O estilo “ostentação requintada” segue firme. O hedonismo do eu-lírico de Don é descolado como seu flow e, por mais que a ideia de ostentação remeta à noção de “viver o presente de maneira inconseqüente”, neste caso temos uma peculiar postura do que poderia ser chamado de “ostentação diacrônica” ou “ostentação dialética”, pois o diálogo com o passado do sujeito jamais deve morrer.

Essa, na verdade, é quase uma regra entre os rappers (que tem sido muito distorcida no senso comum com a associação à suposta “pegada vazia e ordinária” do funk ostentação): tô na fama, e eu a desejei, mas tô com o pé no chão; tô rico, e eu corri atrás disso, mas não mudei. Kendrick de novo, em Now or never: A fool if I take it all for granted / A smart man if I keep my feet planted [Um tolo se eu virar as costas pra tudo isso / Um cara esperto se eu manter meus pés plantados].

5) No melhor estilo

Bota um drink do melhor no gelo prum dos melhores dos MCs 
Um trago de green pelas batalha que eu venci
Não batalha de free, nem tempo eu tive
De onde eu vim, cena do rap é a cena do crime

Rap no melhor estilo gangsta. Com beat de Papatinho da Cone Crew e participação de Terra Preta, Don L segue com suas referências indiretas aos seus mestres, ora claras ora sutis, seja 2pac (pra eu chegar assim, Maquiavélico – um dos nomes artísticos de 2pac era Makaveli), seja o trocadilho com a bebida Ice Tea e o rapper Ice-T.

Rappers costumam rimar em cima de nomes próprios e, é claro, nomes de marcas, em geral da cultura de massa. Há décadas atrás o Brasil ficava chocado com a rima de Caetano em Alegria Alegria: coca-cola com escola. Don L gosta muito de utilizar esse recurso (aqui temos “Miami” com “me ame”; na anterior temos “Yoko” com “morto”; mais tarde encontraremos “Coltrane” com “oh, quem...”).

6) Depois das 3

Ô, o que ela tem nesse olhos 
Que me lembra o que nem vivi
Tipo Ipanema em setenta
A gente contempla um transatlântico
Eu transo um som romântico, pornô, meio transa tântrica

E por falar em Caetano, o jogo de palavras e rimas no trecho acima é bem caetanístico. O refrão é cantado por Izabel Shamylla, outra cantora da cena local de Fortaleza. Um rap suave, com flow destilado também de maneira suave. Uma das minhas prediletas.

7) Plástico

Nove da manhã 
A casa de cabeça pra baixo
A sandália dela no quarto
Aquela da alça de plástico
Embalagens de aperitivo barato
Junto com a garrafa de vinho caro
De uma safra noventa e quatro

A música mais “autotuneada” da mixtape, com um beat provocativo. O romântico Don nunca é obsessivo, nunca é desesperado, o que causa um efeito de elegância: algo declaradamente intenso sendo retratado com equilíbrio. É a velha distinção entre erotismo e pornografia.

8) Me faz acreditar

Então esqueço o sonho que acordei me lembrando 
Pra lembrar dos sonhos que já tenho há vários anos
Quanto tempo eu tenho pra correr e a quanto?

Uma pequena faixa inserida no meio da mixtape com uma base instrumental completamente inesperada - flauta doce e percussões idílicas, na pegada Milton Nascimento – e letra igualmente inesperada. O refrão simplesmente é: Bom dia, muito obrigado! / Me faz acreditar!

9)  Slow Jam

A vida é fumaça, prima 
Se perde na brisa do ar se num tragar a fita
Escolho contigo o lugar pra te levar, firma?

Uma slow jam com batida de bossa nova gingada. Ao final, um aconchegante fraseado de metal.

10) Beira da piscina remix

A gente ouvia um blues no opala oito sete 
Mi casa era su…
Só mudou o CEP
Okay, mudei a placa
Mudei o carro
Mudei marca

Mas eu, num mudei nada

Beira da piscina é uma música do Emicida que conta com vocais de Rael da Rima no refrão. Esse remix é um bom exemplo da lírica circular que ele aprendeu com o mestre Chico. No trecho abaixo, temos:

A vista é bem louca hein, tem que respeitar / Ó, uvas na boca, flores jasmim
As curvas tão lindas, doggy style pra mim
E nada além disso / Ou talvez sim
Um brinco em safira
pro sol refletir


Ao ouvir essa parte, podemos perceber como ele mantém a métrica no tempo de 4/4 até introduzir o termo inglês “doggy style” (referência a Snoop Dogg) em tempo de 3/4, e, daí, canta os seguintes versos, destacados em vermelho, também nesse tempo, muito embora – faça o teste – eles caibam perfeitamente no tempo 4/4. Depois, finaliza o fragmento voltando ao 4/4 para encerrar o compasso, com a voz também “encerrada” (isto é, baixando o tom). Como em Chico, cada momento métrico da letra de Don precisa estar concatenado, para denotar a ideia de corpo lírico redondo.

11) Nem posso dizer

De tanto querer ser bom 
Misturei o céu e a terra
E por uma coisa à toa
Levei meus anjos à guerra

Os versos acima são de Cecília Meirelles – esta é a introdução da música. Se alguém não conseguiu ainda visualizar os ensinamentos do papai Jigga, eis talvez o melhor exemplo.

12) Caro Vapor

Uma noite tem que valer um verso, 
pra em outro dia, o verso valer a noite
A estrada já tem que valer a viagem 
porque o destino é sempre incerto

Aqui já podemos sentir o peso do maldito Kanye West, o maior beatmaker/produtor de hip-hop em atividade, além de grande rapper (resumindo: gênio). Pra brilhar como MC tem que ter auto-estima: E se eu não for seu rapper favorito / Eu provavelmente sou o favorito do seu favorito.

13) Denso

Hey chapa, essa gata ao meu lado é a ressurreição 
De Joana d’Arc cobrando pela Inquisição

Aqui Don L apresenta seus dois anjinhos da consciência: o primeiro, numa voz feminina sedutora e traiçoeira, é a Vida Premium, a qual o eu-lírico tanto deseja; o segundo é Nego Sub, que, com seu efeito de voz grave, alerta para Don que o preço é caro. Em dado momento, a voz da Vida Premium, para ganhar a treta com Nego Sub, alardeia: Olha como eu tô foda! Olha como eu tô foda!” (não sei o porquê, mas “tô” ao invés de “sou” realmente causa um impacto maior).

14) Cafetina seu mundo

Vô na malandragem, não na sorte 
Porque eu sempre soube quem matou Pixote

Já lançada como single antes, essa causou problemas de natureza autoral a Don, pois ele sampleou a música Everlasting Night do Black Keys. Ainda que tenha creditado, os donos dos direitos não quiseram nem saber e depois de algum tempo a música tinha sido excluída do youtube, sound cloud e sites afins. Rock com autotune.

15) Sangue é champanhe

A vida que pulsou forte 
Quando ela me apresentou a dose
Seduziu de lingerie tipo: Oh, fode!
Hotel unreal
Motel no love
Estourei champagne nela tipo blowjob

Essa fantástica música, com belo arranjo vocal de Flora Matos no refrão, é a única da mixtape que, até então, já tem videoclipe. E que videoclipe. Se você não gostou do estilo de Don L, ou se você sequer gosta de hip-hop, dê uma chance pelo menos a esse grande trabalho artístico. Dirigido por Erica Gonsales em parceria com a fotógrafa Autumn Sonnichsen (que já fez ensaios para Playboy, Trip), o vídeo mostra uma visão diferenciada e sensível da nudez feminina. [DE FATO, AVISO: NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS, O VIDEO CONTÉM CENAS DE NUDEZ]


16) Gasolina e Fósforo

Ei, Don ! Cê é bicho solto, hein! 
Não! Só disposto e em posto e em
Ponto pra queda ou pro vôo e em
Guerra e amor, cê vem?

Essa é uma das mais pesadas da mixtape. O personagem Nego Sub retorna para guiar Don e pô-lo em foco. Nego Gallo, integrante da banda Costa a Costa, também faz uma participação especial.

17) Enquanto acaba

E pelo espelho vejo: que bonito 
E depois do amor jogos de criança tipo
Adedonha
Nome de lugar
B! Barcelona!

Outra com participação de Flora Matos, e outra cujo clipe a ser gravado pode ser realizado pelas mãos milagrosas de Autumn Sonnichsen (em parceria também com Erica Gonsales). Um jazz para encerrar a mixtape cujo verso inicial é “O mundo jaz”.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

[música legendada] Same Love (Macklemore & Ryan Lewis feat. Mary Lambert)


Resolvi contribuir com uma tradução dessa canção porque as que estão disponíveis na internet têm gerado muitas discordâncias (ou seja, como não há uma unanimidade, também estou dando meu “palpite”). Vencedor do prêmio da MTV de “Melhor vídeo com mensagem” (uma categoria que parece ser nova, aliás), Same Love é um rap que fala sobre a aceitação do homossexualismo. 

Há quem afirme que tal música é um marco na história da cultura hip-hop, conhecida, em geral, pela homofobia e misoginia. Não só pela mensagem, é claro, mas pela qualidade da letra e da música (e mais ainda, talvez, do videoclipe), com um beat bem dissonante da tradição G-Funk. Macklemore, antes rapper solo, uniu-se ao DJ Ryan Lewis e ambos lançaram, enquanto dupla, The Heist (2012), álbum do qual faz parte o rap abaixo traduzido. A dupla tem feito sucesso também com outras faixas, como Thrift Shop

Li em algum lugar que eles samplearam, em Same Love, a música People Get Ready, dos Impressions, uma das mais belas canções já compostas pelo ser humano, na minha opinião. Realmente tem uma grande semelhança, mas não tenho certeza.

Nesse meu “palpite de tradução” a diferença principal se encontra no último verso do refrão, quando Mary Lambert diz “She keeps me warm”. Como o adjetivo “warm” não tem variação de gênero no inglês, li em muitas traduções a escolha por “aquecido”, no masculino. Creio que seja um equívoco, pois a música trata da relação homoafetiva; embora o clipe conte a história de um casal masculino, o refrão é cantado por uma mulher, logo, faria mais sentido que a mesma se dirigisse a uma outra mulher, simbolizando e abarcando também a relação homoafetiva feminina. Além disso, a própria Lambert já declarou ser lésbica (ver nota abaixo do vídeo).


NOTA: Segundo o site rapgenius, a cantora Mary Lambert explicou que o verso "não chorar aos domingos" vem de sua experiência, hoje superada, de, durante muito tempo, ir à igreja aos domingos e chorar por ter vergonha de sua homossexualidade.

domingo, 1 de setembro de 2013

[música legendada] Let Nas Down REMIX (Nas feat. J Cole)


Essa é comovente. Entraria para um livro "1001 histórias do Hip-Hop" fácil. Quem sabe até "101 histórias". Considerado uma das grandes vozes da chamada New School, o rapper J. Cole tem sido cada vez mais respeitado no cenário hip-hop, ao lado de contemporâneos como Kendrick Lamar e o pessoal da Odd Future (Tyler the Creator, Earl Sweatshirt, etc.), que aliás conta com o talentosississíssimo cantor de R&B Frank Ocean (que recentemente assumiu em público sua homossexualidade, outro marco na história do cenário hip-hop, que tradicionalmente é associado à homofobia, além da misoginia e do sexismo - o artista contou com o apoio público do casal Jay-Z e Beyoncé, além do seu amigo Tyler, líder da Odd Future).

No tocante rap Let Nas down, J. Cole nos revela como Nas foi sua grande inspiração. Ele costumava imprimir os raps de Nas e colar na parede. E diz: My niggas thought they was words, but it was pictures I saw [Meus manos pensavam que eram só palavras, mas eram imagens que eu via]. O próprio Nas conheceria Cole e daria sinal positivo sobre suas canções. Mas parece que um de seus trabalhos repercutiu negativamente para o mestre: o hit Work Out. Quando No I.D. contou isso a Cole, seu mundo caiu. A música, que você pode ouvir abaixo traduzida, extraída desse canal, narra esse dilema de Cole entre o "rap artístico" e a relação com o mainstream, bem como sua vergonha por ter decepcionado Nas. Um grande rap.


Então o gigante acordou e resolveu tranquilizar seu pupilo. Nas lançou um remix da música, que você confere abaixo, legendada. É impossível explicar a importância e a qualidade de Nas em poucas linhas, portanto nem o farei, muito embora Cole o tenha feito em Let Nas down de maneira antológica - de tal modo que, como diria Paulo Coelho, caberia num tweetPac was like Jesus, Nas wrote the Bible [Pac foi como Jesus, Nas escreveu a Bíblia].


GLOSSÁRIO
* Mano "Nasty" = um trocadilho. Nasty significa desagradável, e era também o primeiro apelido de Nasir Jones.
* Arm & Hammer = outro trocadilho. Arm&Hammer é uma marca de bicarbonato de sódio, produto que é misturado com cocaína pra fazer crack. Crack era a droga que Nas vendia nas ruas, daí o trocadilho. Além disso, "Hammer" pode ser uma gíria para arma. Essa explicação eu retirei do site rapgenius.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

[resenha de álbum] Orquestra Simbólica (Shawlin)


Em geral, a característica fundamental de um rap é a letra extensa, seja no formato storyteller, seja enquanto mensagem política ou poética, ou ainda tudo junto e misturado. Pela lógica, poderíamos acreditar que, ora, se um rapper tem à sua disposição uma estrutura lírica que permite a inserção de vários versos, naturalmente ele terá espaço para divulgar sua mensagem, para esmiuçar as metáforas, para explicar e exemplificar direitinho o que ele tem a dizer e não deixar nada de fora. Mas, como estilo multifocal e plurilíngüe que é, o rap não precisa necessariamente seguir essa regra.

Muitos rappers gostam de trabalhar seus flows de maneira sintética e elíptica. Rakim, como sempre o pai de todos, nos ensinou de maneira exemplar como a métrica é uma espécie de quebra-cabeça, durante o desenvolvimento da qual temos a possibilidade de inserir/retirar inúmeras variações. Esse processo é até natural na música popular. Falo de quebra silábica, de prolongamento de vogais, aglutinações imprevisíveis; mas a cultura musical do Brasil sempre foi familiarizada com a chamada “métrica perfeita” (que eu carinhosamente chamo de “A maldição de Chico Buarque”). Nós não estamos tão acostumados com isso, mas se você for ouvir uma canção portuguesa – já que estamos falando do nosso idioma – verá que é comum. Se eu canto aqui no Brasil “Cristiano Ronaldo é melhor do que Messi” o verso precisa começar em “Cristiano” e terminar em “Messi”, porque, semanticamente, começam e terminam exatamente aí. Em outros lugares, é comum que o primeiro verso termine em “que” e o segundo comece com “Messi”, para terminar com alguma palavra que rime com “que”, se for o caso. Nesse sentido, sinto até constrangimento ao ver como Tom Zé é um estranho no ninho na MPB.

No rap, essa estética é potencializada, até por motivos óbvios. Você tem, por definição, um espaço amplo para criar sua letra e uma velocidade de execução igualmente ampla para inserir um grande número de palavras. Por isso, é fascinante como muitos rappers aproveitam um princípio já verborrágico para amplificar ainda mais essa enxurrada lírica. Dentre os inúmeros casos, falarei brevemente do rapper Shawlin, o MC Shaw, cujo flow me chama a atenção.



Shaw é carioca e foi responsável, junto com nomes como De Leve e Marechal (ver sobre coletivo Quinto Andar), por trazer à tona a qualidade do rap carioca no século XXI. Em seu álbum Orquestra Simbólica, a verve conceitual do disco dialoga com o dia-a-dia do MC: “Na minha ocupação durante o dia, no meu emprego Clark Kent, eu sou engenheiro de áudio e trabalho com restauração do acervo russo de música clássica. Trabalhei inclusive para a Biscoito Fino aqui do Brasil e para a Brilliant Classics, lá da Holanda.”, afirmou, numa entrevista. Nesse álbum, a “sintetização lírica” de Shaw é constatada no seu uso certeiro de ditos populares e de forte carga memética (genial trocadilho com o termo “meme”, acabei de inventar). A junção elíptica dessas frases com os jargões da cultura hip-hop e/ou de periferia cria esse acúmulo semântico que alicerça a filosofia do “para bom entendedor meia palavra basta”.

Coletivo Quinto Andar. Da esquerda para a direita: Shaw, Bruno Marcus, De Leve e DJ Castro.

Na faixa O Mago, por exemplo, o rapper canta:

Mais que a morte, / Eu vou gravar na sua lembrança,
Que a sua realidade é um sonho, / Sonhado por quem alcança,
Sumi com o certo e o errado, / Mas te deixei a balança,
Vi a nossa história e mostro / O que é justiça e o que é vingança,
Temos nossas diferenças, / Ressaltei a semelhança,
Um dia nós vamos lutar juntos, / Eu celebrei nossa aliança.

Fica claro que a “balança” do sexto verso é a famosa “balança da justiça” (a música toda fala de dualidades e contradições); o adjunto é suprimido, não só para manter a rima, mas para despertar no ouvinte seu imaginário e ele mesmo pressupor do que se trata (característica muito forte no rap, bem como as referências à cultura de massa); e, mais do que isso, o termo é posto adiante, justamente de maneira crítica (como falei, esse rap trata disso): o que seria, de fato, justiça? Mais adiante, percebam como no verso “Ressaltei a semelhança” é suprimido uma conjunção – é uma questão de flow e tudo, etc., mas o que está por trás disso? Qual seria a nossa escolha óbvia? A conjunção mas: temos nossas diferenças, mas ressaltei a semelhança. Shaw, ao excluir o “mas”, mostra que não é preciso ter para si a ideia de que opostos seriam, por lei, auto-excludentes ou autodestrutivos, muito embora o tal mundo cruel sempre tente nos convencer disso. Por que o ato de ressaltar a semelhança perante as diferenças deveria vir precedido de uma conjunção de adversidade? Não necessariamente, diz Shaw.

Os dois últimos versos também reforçam a visão de mundo dual do eu lírico. Ao mesmo tempo em que prevê um momento futuro, o mago celebra a aliança no tempo pretérito.


Vamos agora a alguns exemplos mais visíveis do uso de expressões populares e meméticas. Na faixa Homem é crescer, temos:

O tempo livre? É só sangue e suor / Não mais jogando War!
Minha paciência ficou bem pior / Sem revolta ou dó
Então extravaso com uma cerva / Na sueca ou dominó
Nas minhas contas eu dou um jeito / Nos pelas, eu dou um nó
Não mais pago de gostosão / Deixo pra quem tem pau menor
Já que encontrei minha alma gêmea / Então não mais largado e só

“Dar um jeito” é uma expressão típica e creio que até idiomática. É mais difícil identificar expressões idiomáticas que não contenham nenhuma gíria, mas elas existem. E o que Shaw explora bem é a junção destas – as sem gíria – com aquelas – as com gírias. E às vezes misturando um termo de uma, noutra. Se no verso “nas minhas contas dou um jeito” não há gíria alguma, no seguinte “nos pelas, eu dou um nó” há duas; inclusive, novamente aqui temos o movimento elíptico, que condiciona o ouvinte a explorar seu imaginário lingüístico (ou ficar boiando, caso não conheça): os “pelas” são, no caso, os famosos “pela-saco”.

Assim como em O mago, o diálogo entre os versos é notável, muitas vezes entre as próprias palavras: se no verso “Nas minhas contas eu dou um jeito” fica subentendida a óbvia ideia de que uma conta existe para ser paga e de que Shaw suprime, por questões de métrica, o termo “pagar” (pela lógica seria “nas minhas contas eu dou um jeito de pagar”), logo em seguida ele retoma o termo sublimado, não mais no sentido padrão, mas como gíria. É o verso “não mais pago de gostosão”, e o jargão, no caso, é “pagar de”, ou seja: fingir que é algo, forçar a barra em relação à sua personalidade, à sua postura, etc.

Interessante observar também que, no último verso, pela lógica lingüística, Shaw poderia escrever “Não estou mais largado e só”, já que a oração pede um verbo, mas, para manter a unidade sintática da estrofe, onde ele afirma “não mais jogando War” e depois “não mais pago de gostosão”, o rapper mantém o uso do “não mais” e elimina o verbo.

Muitas vezes Shaw utiliza as elipses para demonstrar efetivamente o vazio e a efemeridade de certos aspectos da vida. Nos versos abaixo,

Viver de gozolândia / Pode ser arriscado
Querer fazer algo irado / Subir a avenida pirado
E eu ver o seu carro blindado / Numa esquina virado
Morre você, sua mina / E esses bundão do teu lado

A “rapidez” sintética com que o rapper passa sua mensagem condiz com o fato de que um acidente na estrada pode ser um momento rápido, chocante e inesperado. Num único termo – blindado – pressupõe-se a classe social desses sujeitos no carro.

Outro exemplo é o rap Coração:

Enquanto me mostravam o chão, eu e muitos miravam o céu
Passam-se anos, num me admiro de tantos virarem réus!
Tu faz seus planos, mas comete um engano e a vida créu

Ao utilizar a expressão “e a vida créu”, que por si só já é sintética e até paradigmática, Shaw nos mostra como, de repente, por uma besteira, por um quase-nada, tudo pode ruir. Ou seja: A vida créu é uma frase curta, rápida e certeira, quase fantasmagórica, exatamente como em geral é o momento em que um ínfimo deslize do sujeito pode pôr tudo a perder.

Como último exemplo de elipse, vemos na faixa A saga um exemplo de solução léxica de Shaw para manter a rima:

No perrengue e na correria
Acredite amanhã é outro dia / Lembre-se sua cabeça seu guia
Ter um emprego que te pague bem / Um pra mim também
Uma mina que nos ame com / E nos ame sem

Falo dos dois últimos versos. Naturalmente, o “com” e o “sem” representam a condição financeira do sujeito.


Atualmente, os nomes mais comentados do novíssimo rap têm sido Emicida, Cone Crew Diretoria, Projota, etc. Shawlin também já tem uma boa visibilidade, embora não tanto quanto a dos citados anteriormente. É um rapper promissor, que iniciou sua carreira com apenas 15 anos, e que pode gerar ótimos frutos. O álbum Orquestra Simbólica, de 2012, é, como se diz no jargão típico, um disco de responsa

quinta-feira, 18 de julho de 2013

[música legendada] Canão foi tão bom (Sabotage)


Até o momento, a versão que conhecemos de “Canão foi tão bom” é uma versão demo. Até que saia o esperado disco póstumo, Maestro do Canão, esta é a única versão de que nós, fãs do Maurinho, dispomos. Não há também, como é óbvio, nenhuma versão oficial da letra, de modo que em vários sites a letra de “Canão foi tão bom” ou possui muitos erros ou está incompleta. Ouvi a canção muitas vezes, transcrevi a letra e a comparei com as outras versões que há por aí. Sabendo se tratar de um trabalho ingrato, não tenho a presunção de fixar ou oficializar a letra de “Canão foi tão bom”, mas tenho a intenção de, pelo menos, contribuir para melhor apreciação deste rap, o qual acredito ser uma das melhores músicas de Sabotage.

Quanto à arrumação dos versos e das estrofes, levei principalmente em consideração o fôlego e a respiração de Sabotage para fixá-los. Pode parecer um critério demasiado subjetivo - e é, de certa forma -, mas não creio que haja critério melhor com o material que possuímos.

Há vários trechos da letra que são de difícil resolução e que por isso mesmo valem a pena explicar por que optei por uma saída e não por outra. Vamos a eles. 

O primeiro ponto tem a ver com o título da canção. Admito que não faço ideia se Sabotage a intitulou desta forma ou se alguém lhe deu este nome por causa do primeiro verso. De qualquer forma, preferi não mexer no título, deixei-o sem a vírgula que coloquei no verso. Coloquei esta vírgula (Canão, foi tão bom,) por achar que o “Canão” da letra é o interlocutor para quem Sabotage está cantando. 

Segundo ponto: O Dom dá opinião: a vida é a sua cara. Por que preferi colocar o verbo “dar” flexionado ao invés de “da”? Por achar que Dom, neste caso, é um sujeito, é um personagem assim como Dão e Jão, é alguém que “dá opinião”, uma vez que, para mim, “o dom da opinião”, ou seja, a habilidade de dar uma opinião, não me parece lógico dentro do que a estrofe “quer dizer”.

Terceiro ponto – e um dos mais difíceis:

Jamais a ideologia falha ganha 
a quem produz um som de Jão pros tio, né, Ganja?

Para Guilherme Junks, autor do texto “Canão foi tão bom…” (leia aqui), estes versos são arrumados assim: “Jamais a ideologia falha; / ganha quem produz um som de jão pros tio, né Ganja?”. Percebam: na minha proposta, “falha” é um adjetivo, enquanto na proposta de Guilherme, “falha” é um verbo. Na minha versão, a ideologia falha jamais ganha de quem produz um som de Jão pros tio (embora eu não tenha colocado “de” na transcrição do rap porque ele não canta assim, ele canta “a quem”). Na versão de Guilherme Junks, a ideologia jamais “falha”, e quem “ganha” é quem produz “um som de Jão pros tio”. O meu critério foi o de perceber o encadeamento das palavras na oralidade dos versos, e por isso cheguei a tal sugestão. Não sei precisamente qual foi o critério de G. Junks, embora ele escreva algo sobre: “Entendo que o Sabota quis dizer que o vencedor é o que consegue passar a mensagem da comunidade/do RAP (“som de jão”) pros que tão fora dela (“os tio”), mas sem perder a ideologia (“jamais a ideologia falha”)”. De todo modo, acho que as duas versões coexistem e criam assim uma polêmica interessante.

Ainda na quarta estrofe (proposta por mim), há um trecho que não entendi, e por isso mesmo preferi deixar com uma interrogação: Falar (?) do bairro onde eu nasci, que agrada, e pá. Algumas versões facilmente encontradas propõem: Falar podre do bairro onde eu nasci, que agradei, pá”, mas sinceramente não creio que esteja correto, sobretudo porque a palavra “podre” coloca uma contradição enorme neste trecho.

Outro trecho complicado está no refrão. Optei, no fim, por: “Se decompõe, e se / a gente faz, corre atrás…”, mas também tinha transcrito: “Se decompõe em si. / A gente faz, corre atrás…

Há muitos outros trechos que podem gerar discussão. E isto é ótimo. Não como tem defender veementemente opções como, por exemplo,

Essa é a sina.
Destino indica a correria de um homem.
Alternativa. 
Pra criança aprender, basta quem ensina.

que poderiam muito bem (como observou João Daniel, companheiro aqui do blog) possuir “dois pontos” ao invés de pontos finais:

Essa é a sina:
destino indica a correria de um homem.
Alternativa: 
pra criança aprender, basta quem ensina.

Como disse no começo do texto, segui o critério da respiração e coloquei pontos finais por achar que, na música, estes versos soaram mais “marcados” e “pausados” do que contínuos – uma vez que eu penso que os dois pontos poderiam ‘ligar’ os versos ao invés de separá-los ou demarcá-los.

Quanto à grafia do texto, considerei unicamente a maneira de Sabotage cantar. Supostos erros de concordância foram sumariamente ignorados, pois privilegiei a cadência rítmica da oralidade do mestre Sabote.


*

CANÃO FOI TÃO BOM
  
Canão, foi tão bom,
poder falar pro Dão, que aprendi com Jão,
como obter mais alegria, cara, sempre informação.

Sangue puro e bom.
Pras droga basta um simples não.
O Dom dá opinião: a vida é a sua cara.

Eu me dou bem no som - na raça, um ‘spectron’...
Quem sai do rojão?
É, tio, sem drama…
Face a face com o subúrbio.
O Mandarim, Sabote, o Maurin, o Núcleo.

Registra e mete a cara.
Jamais a ideologia falha ganha
a quem produz um som de Jão pros tio, né, Ganja?
Falar (?) do bairro onde eu nasci, que agrada, e pá.
A mesma viatura pra enquadrar.

Lembrar das mina: mulher, vocês são linda.
Paz periferia.
A criançada agita, pula amarelinha.
A guila gira.
Ciranda, cirandinha.
É muita treta.
Talvez melhor que um menas treta.

Brooklyn, o que será de ti?
Regar a paz, eu vim.
Jesus já foi assim.
Brigas traz intriga, ai de mim, se não, tolin,
Zé Povim quer meu fim.
Se esperar, apodrece.
Se decompõe, e se
a gente faz, corre atrás, pede a paz, eles esquece.
Sempre assim. Crocodilo hoje se arrasta em solo férti.

Crime, ouro, dólar. Bola fora, esquece.
Os vermes, eleito querem,
seus votos preferem.
Paralisia infantil no morro cresce.
Ele observe: o que lhe impede do confere?
A mãe? O pivete? Sujeito mais que pede breque?
Se eu tô com frio, fome, fúria, trombo, clique-clack.
Sei que eles doam, mas não pros morros, pra Unicef.
Pobre esquece.
A mãe maior nos aparece e pede.
O fim maior está tão breve.
"Filho, então que reze, anda ló”.
Vejo na maló.
Ó só, ainda mais pobre do que eu, ai que dó.

Na parte de cima.
Morro da Macumba. Catarina.
Sem estudo, liga.
Criança, coroinha.
O medo, vejo se aproxima.
Às vez não tem nem pista, veja só que fita,
ele desceu da lotação, sofreu chacina.

No bolso uma anistia.
De butucão, beque do bom.
Um beque muito louco e a maldita.
A heroína, a tal da bomba da Hiroshima.

Aqui se faz o fim pra periferia.
Melhor jogar pra cima que tomar.

Tio, vou falar.
Delito óbvio.
Sangue, suor, amor e ódio.
Roubada.
Se não ter fé, tio, se tranca em casa.
E não saia.
Ligue a TV, talvez você vai ver.
Pode crê, me vê num outdoor.
Querem me pegar pra ló.
Vê se po-de?
O menor problema, saiba que é maló.
Dou valor pos pó.
Ter dó de quem vem se arriscar na vida bandida,
o custo de vida, dá laço sem nó.
Lembra a vó. Ó, dá mó dó.
Criança na periferia vive sem estudo e só.
À mercê da mó, tio - tri-Sabó.
Do Mandarin de vol-
ta pra rima, voz bem lá em cima.
Essa é a sina.
Destino indica a correria de um homem.
Alternativa.
Pra criança aprender, basta quem ensina.

Essa é a verdade,
criança aprende cedo a ter caráter.
A distinguir sua classe.
Estude, marque, seja um mártir.
Às vezes um Luther King, um Sabotage.

Brooklyn, o que será de ti?
Regar a paz, eu vim.
Jesus já foi assim.
Brigas traz intriga, ai de mim, se não, tolin,
Zé Povim quer meu fim.
Se esperar, apodrece.
Se decompõe.
E se a gente faz, corre atrás, pede a paz, eles esquece.
Sempre assim. Crocodilo hoje se arrasta em solo férti.